7 conselhos para começar um texto

Dicas da Ana e do Hugo*

nanowrimoOba! Novembro chegou! Estouros de fogos de artifício! Mais um #NanoWriMo! Esta palavrinha absurda refere-se ao epíteto gringo “National Novel Writing Month”, que seria como “mês nacional para escrever romance”. Entretanto, como a iniciativa está meio intergaláctica, com fóruns e redes de apoio em muitos idiomas, seria algo como “chance anual final pra desengavetar aquele maldito texto!”

Somos fãs, mesmo que ambos nunca tenhamos completado o desafio, hehehe. A ideia é bem simples: baixar o volume do superego, botar o id nas alturas e a bunda na cadeira e conseguir escrever 50 mil palavras até o dia 30 de novembro. Assim você termina o ano de 2016 alegre e com muita satisfação.

Há uma plataforma para você se registrar e acompanhar seu progresso: nanowrimo.org. Nela existem fóruns, reuniões, enfim, para a maratona ocorrer tem muita gente ótima contigo. Escrever nunca foi ato solitário.

Aqui vão 7 conselhos para iniciar um texto.

1. Crie um clima, afinal escrever é como transar. Ambiente favorável, luz adequada, cenário perfeito. Escrever é uma das atividades mais prazerosas do mundo! Assim, capriche. Escolha um local que você gosta. Um horário em que você curta. Um cenário inspirador. Nem que seja só arrumar tua escrivaninha e deixar tudo pronto pro grande momento.

2. Confortar o corpo. Está com fome? Com dor nas costas? Com cansaço acumulado dos dias? Fome, sede? Obviamente todos esses fatores influenciam na tua escrita. Antes de um período de escrita, confira se está tudo bem contigo. Alongue-se um pouco, esvazie a cabeça, afaste a ansiedade. Uma pessoa focada e confortável escreve muito melhor.

3. Nutra-se da sua pesquisa. Pesquisar é fundamental para escrever melhor. Saber do seu tema. Detalhar vocabulário. Pesquisar ajuda pacas. Mas muita gente ou só pesquisa (e não escreve) ou desembesta a escrever e não pesquisa o suficiente (gera textos óbvios demais). O ideal é pesquisar — ler livros que dialoguem com o seu tema, assistir vídeos, ler textos críticos —, mas anotando! Uma pesquisa ativa, atenta. A pergunta deve ser: o que isso tem a ver com o meu romance?

4. Estruture-se! Para evitar trocentas idas e vindas de revisão, enredos que não se sabe para onde vão e personagens que não possuem charme, é fundamental estruturar antes o que se vai fazer. Além de economizar tempo e diminuir o stress, um desenho claro de trama, personagens, enredo, etc. irá facilitar tua escrita.

5. Fie a trama. Se a trama é apenas uma linha que conecta as situações que você quer narrar, a personagem que vai viver essas situações é a protagonista. A leitura do teu romance vai passar uma visão de mundo — e a maneira mais simples de fazer isso é através do olhar da protagonista.

6. O coração do romance. O centro do romance é a maneira como a protagonista lida com o seu mundo. Crie obstáculos para a protagonista. Pode ser um antagonista que a impede de chegar a algum lugar; pode ser uma catástrofe natural que cercou o grupo de aventureiros em uma floresta gelada; pode ser um conflito interior que a protagonista precisa superar para conseguir algum objetivo.

7. O mal feito é melhor do que o não feito. Em se tratando do NaNoWriMo, melhor você simplesmente… escrever! Brigue com o teclado, com o papel. Combata tua paralisia. Faça exercícios. O simples fato de estar em movimento ajuda muito.

NaNoWriMo_2016_WebBadge_Participant-200Dica bônus! No NaNoWriMo, tudo foi pensado para desengavetar o teu livro. Então, deixar o ego de lado e fazer as coisas da forma mais simples é realmente a melhor maneira de chegar ao final. Portanto, pense que todos os sete conselhos acima possuem começo, meio e fim. Assim:

  • Escolha um lugar legal, deixe-o confortável e feche a porta.
  • Faça alongamentos, respire, esvazie a mente.
  • Faça uma lista de temas a pesquisar, empilhe alguns textos e leia-os.
  • Pegue uma folha de papel e desenhe o gráfico da estória: onde estamos, como é a estrada que percorremos e aonde queremos chegar?
  • Quem é o seu elenco: o que a protagonista quer? Quem caminha junto com ela? O que o antagonista faz para impedir?
  • Deixe tudo de lado, fixe uma meta diária (por exemplo, duas mil palavras) e escreva; simplesmente escreva.

E não se preocupe: quando terminar o mês e você chegar ao final do NaNoWriMo, em dezembro será a vez de reescrever e revisar o texto!

* Ana Rüsche é escritora, dá aulas de criação literária e publicou já um monte de livros. Escreve no wordpress.anarusche.com

Hugo Maciel é editor, preparador e revisor de textos.

Guia do projeto de pesquisa

O projeto é parte do processo seletivo tradicional da pós-graduação no Brasil. Sua elaboração é uma etapa preliminar da pesquisa universitária. Cada instituição possui diretrizes e modelos particulares; o momento de apresentar o projeto e até a sua obrigatoriedade são variáveis.

Guia do projeto de pesquisaAqui você encontra subsídios para avançar na pós-graduação. Estas dicas são indicações gerais de metodologia científica e não suprem a consulta ao manual da faculdade.

O projeto se divide em introdução, referencial teórico, metodologia, recursos, cronograma e referências.

A introdução descreve o tema, formula o problema e aponta hipóteses para a sua solução, a ser explicada em termos objetivos, com sua respectiva justificativa.

O assunto a ser provado ou desenvolvido é o “tema” da sua pesquisa. Defina precisamente seus limites, evitando generalidades vagas.

A investigação científica inicia-se por curiosidade do investigador. Seu interesse o leva a formular questões práticas ou teóricas cujas delimitações técnicas (ou “problema”) determinarão os objetivos e a metodologia da pesquisa.

Suas hipóteses para resolver o problema orientarão a busca das informações capazes de explicar os dados obtidos. Por antecederem a confirmação dos fatos, serão testadas durante a análise do material coletado, podendo ser validadas, negadas ou modificadas.

Seu objetivo é compreender os resultados alcançados pelas ações a serem empregadas na abordagem do problema. Quais são, de forma clara e precisa, as ações que você desenvolverá para alcançar o seu objetivo?

Justifique-as. Por que devemos ter interesse e nos importar com a sua pesquisa? Qual será a sua contribuição para o debate científico? Trará algum desenvolvimento teórico ou prático? Quais são as possibilidades concretas de realizar a pesquisa? Responda e terá a sua justificativa.

É necessário comentar o referencial teórico, pois a ciência requer fundamentos. Faça um levantamento preliminar das fontes de informação (livros, artigos científicos, trabalhos acadêmicos, etc.) que te ajudaram a definir o objeto da pesquisa e selecione as que podem ser utilizadas para submeter as hipóteses ao teste pretendido.

Indique a metodologia que conduzirá a investigação. Cada pesquisa é desenvolvida com técnicas e procedimentos adequados a métodos e sistemas específicos, com seus respetivos instrumentos de coleta, organização, tratamento e análise de dados.

Caso a pesquisa demande financiamento, descreva as despesas, sua natureza e valores estimados. Se possível, apresente cotações. O investimento necessário para executar a pesquisa pode ser agrupado em três tipos de recursos: gastos com pessoal; materiais e equipamentos; e custos diversos (por exemplo, deslocamento e hospedagem). A elaboração de uma planilha ajuda a organizar e viabilizar a pesquisa.

O cronograma descreve o tempo necessário para cada atividade planejada. Em uma tabela, distribua as etapas da pesquisa em relação ao seu tempo de duração. Alguns exemplos do que pode ser incluído: pesquisa bibliográfica; fichamento de obras de referência; coleta e tratamento de dados; organização e preparação de rascunhos; qualificação; redação e consolidação do relatório final; revisão e formatação do texto; impressão e entrega do trabalho.

Por fim, crie uma lista com todas as referências citadas no projeto. Alguns programas de pós-graduação exigem também a apresentação de uma lista com a bibliografia preliminar, isto é, as fontes que serão consultadas ao longo da pesquisa. É importante que as listas obedeçam às regras de formatação exigidas pela sua faculdade (ABNT, APA, ISO, Vancouver, etc.).

Em alguns casos, o projeto ainda pode trazer anexos (não elaborados pelo autor) e/ou apêndices (criados pelo autor) — elementos opcionais que complementam ou fundamentam a sua argumentação.

Caso você precise de mais dicas sobre a elaboração e a formatação do seu projeto de pesquisa, sinta-se à vontade para nos enviar um e-mail. Teremos o prazer de fazer um orçamento que atenda às suas necessidades.

Leia romances brasileiros escritos por mulheres

O ano de 2015 foi bastante conturbado para quem trabalha com livros. Entre dobras e refilos, o ano fechou com uma polêmica envolvendo a visibilidade que as mulheres escritoras recebem na mídia — e no próprio mercado editorial.

A Ana Rüsche (“Acordados”, Demônio Negro, 2007) publicou um texto apontando “como a intensa produção de poesia feita por mulheres no Brasil segue invisível”. As conclusões são espantosas: nas antologias comentadas pela Ana, há um total de 192 poetas (incluindo nomes duplicados em mais de uma antologia), dos quais apenas 18 são mulheres (contando as que se repetem). Oito homens contra uma mulher.

Leia romances brasileiros escritos por mulheresEsses números assustam ainda mais quando sabemos que a maioria das pessoas que leem e escrevem poesia (e literatura, de modo geral) — bem como a maioria dos que trabalham no mercado editorial — são mulheres. Como assim? As mulheres são as que mais leem, são as que mais escrevem e são as que mais trabalham com livros, mas são as menos publicadas? Com certeza há algo errado nessa assimetria — e não, não é um problema de qualidade. É uma questão política!

Que fique claro: a disparidade entre o número de livros publicados por homens e mulheres é uma faceta da violência praticada contra as mulheres.

Esse fenômeno já foi objeto de estudo. Regina Dalcastagnè, professora da UnB, coordenadora de uma pesquisa sobre a personagem dos romances brasileiros contemporâneos, analisou “258 obras, o que corresponde à soma dos romances brasileiros do período entre 1990 e 2004” publicados pelas principais editoras brasileiras. Entre suas conclusões, destacam-se: 72,7% dos romances publicados nesse período foram escritos por homens; além disso, 93,9% dos autores e autoras estudados são brancos.

Nesse sentido, vale a pena prestar atenção na questão problematizada pela Bianca Goncalves no Blogueiras Negras: quantas autoras negras você já leu? Se o número de mulheres publicadas é muito menor em relação ao número de homens, a quantidade de escritoras negras que recebem a atenção do mercado editorial é menor ainda!

Essa violência tem sido combatida com bastante perseverança. Desde 2014, por exemplo, um movimento internacional chamado “Read Women” (aqui no Brasil, “Leia Mulheres”) visa promover a literatura produzida por mulheres. Entre outros frutos, eu gosto de citar as várias listas de livros que começaram a ser divulgadas pela mídia.

Uma das mais legais, por exemplo, foi elaborada pela Lady Sybylla, que escreveu, em seu excelente blog Momentum Saga, um post indicando 52 autoras de ficção científica. Outra lista legal foi elaborada pela Thaís Campolina e publicada no blog Ativismo de Sofá.

E por falar em listas, recomendo prestar atenção ao mapeamento das mulheres na literatura marginal/periférica, que é parte de uma pesquisa acadêmica conduzida pela Jéssica Balbino e encontra-se disponível nas Margens. Aproveite para se automapear!

Também é interessante notar que os concursos literários começaram a prestigiar um pouco mais as escritoras. Se fizermos uma lista com os romances brasileiros premiados nos últimos anos, podemos constatar que o número de mulheres premiadas vem aumentando gradualmente. Mas ainda assim é pouco: no mesmo período, a fração de romances premiados escritos por homens é muito maior. Portanto, ainda precisamos lutar bastante!

Eis a lista completa de romances brasileiros escritos por mulheres e premiados nos últimos anos:

  • Clair de Mattos. Mosaico em branco e preto. Rio de Janeiro: Razão Cultural, 1999. (Prêmio ABL de Ficção, 2000).
  • Patrícia Melo. Inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. (Jabuti, 2001).
  • Maria José Silveira. A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas. São Paulo: Globo, 2002. (Troféu APCA, 2002).
  • Ana Miranda. Dias & Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. (Prêmio ABL de Ficção, 2003; e Jabuti, 2003).
  • Adriana Lisboa. Sinfonia em branco. Rio de Janeiro: Rocco, 2001; Lisboa: Temas e Debates, 2003. (Prémio José Saramago, 2003).
  • Nélida Piñon. Vozes do deserto. Rio de Janeiro: Record, 2004. (Jabuti, livro do ano, 2005).
  • Eugênia Zerbini. As netas da Ema. Rio de Janeiro: Record, 2005. (Prêmio Sesc de Literatura, 2005).
  • Ana Maria Gonçalves. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006. (Casa de las Américas, 2007).
  • Idalina Azevedo da Silva. O tempo físico. São Paulo: Scortecci, 2007. (Prêmio Machado de Assis – FBN, 2007).
  • Beatriz Bracher. Antonio. São Paulo: Editora 34, 2007. (Jabuti, 2008; e Portugal Telecom, 2008).
  • Tatiana Salem Levy. A chave de casa. Rio de Janeiro: Record, 2007. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2008).
  • Carola Saavedra. Flores azuis. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. (Troféu APCA, 2008).
  • Maria Esther Maciel. O livro dos nomes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. (Casa de las Américas, menção, 2009).
  • Gabriela Guimarães Gazzinelli. Prosa de papagaio. Rio de Janeiro: Record, 2010. (Prêmio Sesc de Literatura, 2010).
  • Elvira Vigna. Nada a dizer. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Prêmio ABL de Ficção, 2011).
  • Andréa del Fuego. Os malaquias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010. (Prémio José Saramago, 2011).
  • Suzana Montoro. Os hungareses. São Paulo: Ofício das Palavras, 2011; Rio de Janeiro: Rocco, 2013. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2012).
  • Luisa Geisler. Quiçá. Rio de Janeiro: Record, 2012. (Prêmio Sesc de Literatura, 2012).
  • Ana Maria Machado. Infâmia. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2011. (Prêmio Passo Fundo de Literatura, 2013).
  • Lya Luft. O tigre na sombra. Rio de Janeiro: Record, 2012. (Prêmio ABL de Ficção, 2013).
  • Paula Fábrio. Desnorteio. São Paulo: Patuá, 2012. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2013).
  • Veronica Stigger. Opisanie Świata. São Paulo: Cosac Naify, 2013. (Prêmio Machado de Assis – FBN, 2013; Jabuti, 2014; e Prêmio São Paulo de Literatura, 2014).
  • Ana Miranda. O peso da luz: Einstein do Ceará. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2013. (Prêmio Brasília de Literatura, 2014).
  • Ana Luísa Escorel. Anel de vidro. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2014. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2014).
  • Vanessa Barbara. Operação impensável. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. (Prêmio Paraná de Literatura, 2014).
  • Débora Ferraz. Enquanto Deus não está olhando. Rio de Janeiro: Record, 2014. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2015; e Prêmio Sesc de Literatura, 2014).
  • Elvira Vigna. Por escrito. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Prêmio Oceanos, 2015).
  • Maria Valéria Rezende. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014. (Jabuti, 2015).
  • Micheliny Verunschk. Nossa Teresa: vida e morte de uma Santa Suicida. São Paulo: Patuá, 2014. (Prêmio São Paulo de Literatura, 2015).
  • Tércia Montenegro. Turismo para cegos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (Prêmio Machado de Assis – FBN, 2015).
  • Sheyla Smanioto. Desesterro. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Prêmio Sesc de Literatura, 2015).

Ao chegar ao final desta lista, algumas considerações precisam ser feitas.

O que essa disparidade quer dizer? Cada um dos concursos analisados na minha pesquisa possui regras próprias, mas, de um modo geral, podemos dizer que são premiadas obras publicadas no ano do concurso ou no ano anterior (o Prêmio Sesc é uma importante exceção, pois somente aceita a inscrição de obras inéditas). Ou seja, uma das minhas hipóteses é que a assimetria na premiação de romances escritos por homens ou mulheres seria um reflexo da disparidade no número de romances publicados. Esta ainda é uma pesquisa em andamento; um futuro passo será analisar o total de romances que foram inscritos nos concursos, por exemplo.

Talvez fique mais claro apresentando esses números em um gráfico:

Disparidade machista

Esses livros são os melhores romances publicados por mulheres, no Brasil, nos últimos anos? Não. Muitos livros ótimos ficaram de fora desta lista simplesmente por causa de critérios como (i) quais concursos eu considerei ou (ii) livros que foram finalistas nos prêmios não entram na lista. Por exemplo, a Carol Bensimon recebeu a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária para escrever um romance, “Sinuca embaixo d’água” (Companhia das Letras, 2009), que depois foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Jabuti e Bravo. Porém, como eu não contabilizei nem os romances que receberam a bolsa da Funarte, nem os romances finalistas nesses concursos, o livro dela não figura na lista deste post.

Outro ponto: o fato de ter vencido ou não um prêmio não garante a qualidade do livro. O mecanismo por trás dos concursos literários nem sempre prestigia as virtudes literárias de uma obra. Há inúmeros livros excelentes que jamais foram sequer publicados, não tendo a menor chance de disputar um prêmio. E há livros premiados envoltos em polêmicas quanto à justiça da premiação. Esta lista não é uma lista dos melhores romances publicados por mulheres, no Brasil, nos últimos anos; esta é uma lista dos romances escritos por mulheres e que receberam prêmios. A intenção é mostrar, em primeiro lugar, que o mercado editorial tem prestado mais atenção à literatura escrita por mulheres — embora, como muito bem apontado pela Ana Rüsche, ainda seja necessário percorrer um longo caminho até o fim da discriminação e da violência contra as mulheres. Em segundo lugar, o objetivo é mostrar como essa questão se reflete nos concursos literários, que são um importante mecanismo não apenas de difusão da literatura, mas, principalmente, de fomento à própria criação literária.

Esses livros são “literatura feminina”? Não. Simplesmente porque isso de literatura feminina é bobagem. Literatura adjetivada... Se você quiser discutir essa questão, recomendo pesquisar sobre a polêmica que surgiu na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Entendo que literatura é literatura, e sua adjetivação geralmente é uma forma de segregação da produção do “outro” — sendo este “outro” criado artificialmente, via discurso, para reafirmar os valores da cultura machista. Por isso, faço minhas as palavras que ecoam desde julho de 2015, segundo as quais esse adjetivo não passa de um “vetor de preconceitos típicos — uma literatura mais ‘emocional’, mais ‘leve’, mais ‘sensível’ —, como se esses atributos fossem os únicos da literatura escrita por mulheres” (a propósito, não deixe de conferir os números apresentados pelo Ronaldo Bressane com base na pesquisa da Regina Dalcastagnè). E encerro fazendo coro às palavras da Carola Saavedra: “à literatura interessa apenas o texto, seu valor literário, e, como toda criação artística, se faz e se esgota independentemente de qualquer teoria” (a propósito, não deixe de conferir a retrospectiva histórica que fundamenta a resposta da autora).

Por fim, você acha que ficou faltando algum livro na lista e quer fazer uma indicação? Vamos levar essa conversa para as redes sociais! Quem sabe a continuação da minha pesquisa revela um cenário mais promissor.

Os novos meios e o futuro dos livros

Todas as mídias que conhecemos passam por um processo que pode ser assim resumido:

  1. Invenção e desenvolvimento de suas possibilidades pelos pioneiros;
  2. Tentativa de tornar essa mídia um negócio lucrativo, via dois modelos: pagamento (destinatário paga pelo conteúdo) ou publicidade (destinatário não paga pelo conteúdo, mas aceita que as propagandas custeiem a sua produção) — sem falar de modelos com custeio indireto (via impostos, por exemplo) e de modelos mistos;
  3. Decadência da mídia, ou porque o pagamento do público não é suficiente para bancar os custos e dar lucro, ou porque o canal se encontra sobrecarregado de publicidade e conteúdo de baixa qualidade;
  4. Invenção de uma nova mídia, que reúne os prós e os contras das mídias anteriores e leva adiante o mesmo processo, em espiral.

O livro é uma mídia. Devido a suas características (filtro de conteúdo, custos de produção, distribuição em nichos ou em larga escala, etc.), o negócio dos livros vem passando por esse processo lentamente.

Entrevista com André Schiffrin no Roda Viva, um dos poucos programas da televisão brasileira que ainda se preocupa com a consistência do debate cultural

No início do rádio e da televisão, pensava-se que a alta cultura seria divulgada em massa para todos os cantos do mundo. O editor André Schiffrin nos lembra que podiam ser vistas peças de Sartre pela televisão. Hoje, porém, a televisão está tomada por programas pasteurizados em que os participantes jamais ouviram falar em Sartre.

Isso também está acontecendo com a Internet. Desde o início, seus criadores sabiam que o uso comercial deste meio levaria à sua decadência. E é isto o que vemos hoje: o fluxo esmagador de conteúdo gira em torno de um eixo retroalimentado pela publicidade, raspando a tábula da comunicação até não restar matéria para novas incisões. Até mesmo o debate em torno de questões políticas é feito desta maneira; basta ter em mente que a política se resume, na Internet, a slogans do tipo “Fora Fulano” e memes descontextualizados.

Em suma: ridicularizar para não explicar; infantilizar o debate para prender a atenção do consumidor; transformar a cultura em produto.

Apenas para dar um giro de maior amplitude antes de voltar à questão dos livros, é importante citar outros dois exemplos: o da música e o das notícias, sobretudo nas suas características que mais interessam para o problema central deste texto.

Os sebos se tornaram museus da produção musical em vinilA música, como conteúdo, vem sendo veiculada ao longo da história da humanidade por meio de diversos suportes. Os concertos apresentados em teatros e os shows apresentados em bares são meios de veicular a música. O disco de vinil e o CD são meios. Os formatos digitais (wav, mp3, flac) são meios. Os canais de distribuição e consumo (rádio, iTunes, Spotify) são meios. Cada um desses meios funciona como intermediário entre o músico, produtor do conteúdo, e o ouvinte. Duas características interessam para a questão dos livros:

  1. Há um preconceito corrente que supõe o seguinte: quanto mais primitivo o meio, maior a qualidade da produção. Assim, a música ao vivo seria melhor do que a música veiculada em discos, que seria melhor do que aquela veiculada em CDs e do que aquela veiculada em mp3. Mas essa ideia não é, necessariamente, verdadeira. Cada meio tem particularidades a serem exploradas pelos produtores; cada meio permite a criação de um conteúdo que explore as suas características particulares. Além disso, cada meio pode interagir com os demais, levando à transmidiação — assunto tão vasto que seria possível preencher vários livros sem esgotá-lo.
  2. Os modelos de sustentabilidade podem ser observados na comparação entre o rádio (tomado por propagandas e jabá) e os serviços de streaming (além de haver produtores de conteúdo exclusivo para este meio, o ouvinte pode criar a sua própria “rádio” e ouvir músicas sem jamais ser interrompido por uma única propaganda — mediante o pagamento de uma mensalidade).

A notícia, como conteúdo, também vem sendo veiculada ao longo da história por meio de diversos suportes. O principal elemento que interessa para este texto é o seguinte: todos os jornais expressivos da atualidade estão enfrentando a questão da sustentabilidade. Qual é a medida entre cobrar do leitor e veicular propagandas, a fim de garantir a produção contínua de conteúdo relevante e lucrativo?

É ingênuo pensar que o mesmo processo não acontece com a cultura letrada. Os livros nada mais são do que um meio de veicular textos escritos. Os jornais, as revistas, os tabloides, os pergaminhos, os panfletos, os folhetins, os blogs, o mural do Facebook, etc. — tudo isso são meios que servem (também) para veicular textos escritos. Cada um possui características que lhe tornam mais adequado para a veiculação de um conteúdo próprio. Devido às suas características, o livro é um meio ideal para a veiculação de textos grandes, sejam textos que contam a estória complexa de um grupo de personagens, sejam textos que desenvolvem um raciocínio complexo e com várias implicações. Assim, por exemplo, o surgimento dos romances, na história da literatura, está intrinsecamente ligado à consolidação do processo industrial de produção dos livros.

É difícil pensar seriamente nos blogs como meio adequado para a publicação de um romance. Mas já é mais fácil pensar nos e-books como meio adequado para isso — muito embora o e-book tenha particularidades que suscitem a reformulação do texto a fim de readequá-lo ao meio. Este é um movimento presente em toda a história da cultura: o desenvolvimento de um novo meio leva à produção de um novo tipo de conteúdo.

Portanto, mais do que pensar no que está acontecendo com os livros, é preciso pensar no que está acontecendo com a cultura letrada.

Qual é o equivalente moderno da Biblioteca de Alexandria?

Hoje em dia, já não se criam mais poemas épicos. Este era um formato corrente de contar estórias antes da disseminação e consolidação da escrita. Mais de dois milênios depois de as grandes epopeias gregas serem cantadas por aedos, algumas poucas epopeias escritas conviviam, no final da Idade Média, com novelas de cavalaria. A partir da produção industrial de livros, a literatura passou a ser dominada pelos romances e coleções de contos.

Atualmente, há uma convivência entre diversos meios e diversos tipos de conteúdo. Há folhetins sendo veiculados em sites como o WattPad. Há minicontos sendo veiculados em blogs. Há microcontos sendo veiculados no Twitter. E há sagas imensas veiculadas em livros (só para ficar nos exemplos mais populares: Harry Potter e As Crônicas de Gelo e Fogo).

O problema dos livros não é o surgimento de novos meios. Quer dizer: os e-books não vão extinguir o livro. Os meios convivem uns com os outros na medida em que o conteúdo próprio daquele meio continua a ser culturalmente relevante. Vale dizer: enquanto houver escritores escrevendo romances, haverá livros sendo publicados. E mais: há conteúdos que somente podem ser veiculados em livro: livros de arte e de fotografia, por exemplo, não podem ser desfrutados em formato digital tão bem quanto em um suporte físico. E isso nos leva a uma questão paralela, que é a da qualidade do trabalho de produção gráfica dentro do contexto editorial (os livros publicados pela Cosac Naify devem ser citados) — mas o assunto fica para outro texto.

O problema dos livros é a sustentabilidade do negócio editorial. Então, ao invés de choramingar contra os blogs e os e-books, é mais inteligente compreender como os grandes conglomerados midiáticos estão empenhados a reformular a lucratividade da cultura letrada e, nesse processo, estão enterrando os pequenos produtores (escritores, editores, gráficas e livreiros que atuam em pequena e média escala).

Sejamos claros: o problema dos livros é, por exemplo, a Amazon ter como objetivo negocial a extinção das livrarias; o problema é, por exemplo, que as editoras somente aceitem publicar manuscritos de autores consagrados, pois o departamento de contabilidade não sabe lidar com o risco de publicar um autor estreante; o problema é o público leitor se pautar pelas listas de mais vendidos; o problema é a verba cada vez mais escassa das bibliotecas públicas. E assim por diante.

O futuro dos livros não está assim tão vinculado aos novos meios. O que é crucial são os modelos de negócios.

Ao invés de procurar a luz no fim do túnel, que tal entender como os tijolos formam as paredes do túnel?

Não é possível pensar em termos econômicos sem pensar no seu correspondente jurídico: toda a economia capitalista possui uma relação umbilical com a legislação. O objetivo deste texto não é propor soluções, mas apenas redirecionar o debate em torno da questão do futuro dos livros e fazer um alerta: a legislação precisa proteger a cultura; do contrário, as forças do mercado irão soterrar a produção cultural.

Que tipo de proteção legal o mercado editorial brasileiro precisa desenvolver se quisermos que o livro (como meio de veiculação cultural) tenha um papel relevante em nosso futuro?